121 anos:quando o Rotary aprende a respirar com o planeta
121 anos: quando o Rotary aprende a respirar com o planetaPor Alberto Palombo* O dia 23 de fevereiro de 2026 amanheceu com um detalhe impossível: na praça principal, o ar tinha um brilho quase dourado, como se alguém tivesse polido a manhã com paciência de ourives. Os mais velhos do bairro disseram que era o aniversário do Rotary e que, quando o Rotary faz aniversário, as coisas se ajeitam sozinhas por um instante — como se o mundo se lembrasse da sua melhor versão — girando pelo planeta com sua engrenagem que não para. Numa mesa de café virtual, Carlos Lanzillotto, meu amigo rotariano da Argentina — com a calma de quem traz notícias de longe — deixou cair uma frase de Paul Harris, dita em 1936, que parecia escrita para este dia. Falava de nós, sul-americanos, como se ele nos tivesse visto caminhar pelas nossas cidades com essa mistura de urgência e festa, de trabalho e conversa demorada: os negócios como meio, a vida acima do sucesso, a crise como mestra severa que nos obriga a escolher o essencial. E, ainda assim, o mais surpreendente não era o elogio, mas a profecia: que aprenderíamos uns com os outros, que a eficiência e o prazer de viver poderiam coexistir, como dois rios que finalmente se encontram. Há tempos, o Rotary se parece com esses rios. Um traz experiência: comissões, projetos, atas, parcerias, a disciplina do servir. O outro traz novidade: ferramentas que, há poucos anos, pareciam ficção científica, como a inteligência artificial. E, neste aniversário, os dois rios se juntam para formar uma corrente mais forte — uma corrente que não apenas faz coisas, mas faz melhor e com mais cuidado. Porque o Rotary — quando levado a sério — não é uma coleção de bons gestos: é uma forma de olhar a realidade com a Prova Quádrupla como bússola e “Dar de Si Antes de Pensar em Si” como modo de caminhar. É perguntar, antes de agir, se o que propomos é verdade, se é justo, se constrói boa vontade e se beneficia a todos. E, então, agir mesmo assim, inclusive quando custa. Hoje dizemos “Unidos para Fazer o Bem”, como nos convidou Mario de Camargo, e isso soa simples até lembrarmos que união não é unanimidade: é coordenação, respeito, continuidade — e aquela habilidade latino-americana de discutir com paixão para terminar abraçados, porque o projeto importa mais do que o orgulho. Unidos, sim — mas não parados. Unidos, porém avançando. E avançar, em 2026, significa encarar sem rodeios as grandes urgências que nos atravessam. Meio ambiente sustentável e ação climática. Em alguns lugares, a chuva já não obedece aos calendários: vem quando quer — ou não vem. As árvores, que antes eram certeza, agora parecem pedir licença para continuar de pé. A ação climática não é um tema “verde”: é água na torneira, saúde no ar, alimento na mesa, futuro para as crianças. O Rotary pode ser essa rede que transforma preocupação em projeto: reflorestamento com sentido comunitário, educação ambiental que não faz sermão, mas muda hábitos, energias mais limpas onde for possível e soluções locais que resistem ao tempo. Cuidar da saúde de mães e filhos. Nas nossas cidades e no campo, muitas vezes a vida chega ao mundo com obstáculos injustos: pré-natais que atrasam, deslocamentos impossíveis, informação que não circula, sistemas que se sobrecarregam. Cuidar da saúde materno-infantil é cuidar do coração do futuro. É garantir acompanhamento, acesso, educação, nutrição e respeito. É fazer com que nascer — e criar — não seja um privilégio. Prevenir doenças. A prevenção é uma forma elegante de amor: não espera que a dor faça barulho. É vacinação, água segura, higiene, educação, detecção precoce, hábitos sustentáveis. É construir comunidades onde a doença tenha menos espaço para se instalar. E é também aprender a comunicar bem — sem medo e sem confusão — com dados claros e empatia. É aí que surge, como se fosse um personagem novo nesta história, uma ferramenta de inovação: a inteligência artificial. Não como substituta da consciência humana, mas como multiplicadora da nossa capacidade. Um GPT como _Paul the Rotarian_ (ferramenta elaborada pelo rotariano Majrahani Pérez, das Filipinas) pode nos ajudar a escrever melhor, organizar ideias, revisar planos de projeto, preparar relatórios, compreender documentos e processos, capacitar lideranças, não perder continuidade nas transições de dirigentes no Rotary. Pode nos poupar tempo — esse recurso invisível — para investir onde o Rotary é insubstituível: na visita, na escuta, no território, na amizade, na decisão ética. Mas a tecnologia, se não for bem conduzida, vira ruído. Por isso, o verdadeiro milagre não é uma máquina escrever: o milagre é um rotariano usá-la para servir com mais integridade, com mais eficácia e com mais ternura. Porque o serviço, quando é autêntico, acaba sempre se parecendo com uma conversa humana. E se, no próximo ano, como nos convoca Yinka Babalola, buscamos impactos positivos e duradouros, talvez a chave seja esta: não perseguir projetos que brilham por um mês, mas processos que permaneçam. Que deixem capacidades instaladas. Que formem líderes comunitários. Que fortaleçam sistemas locais. Que façam o bem continuar mesmo quando o Rotary já não está na foto. Quando a tarde caiu neste 23 de fevereiro, o brilho do ar foi se apagando. A praça voltou a ser praça. O café voltou a ser café. Mas ficou algo: a sensação de que a história não está encerrada — de que 121 anos não são celebração do passado, e sim responsabilidade pelo que vem. E então, como se a cidade soubesse, alguém disse em voz baixa, sem solenidade e sem espetáculo:— Sigamos. Unidos. Com alegria latino-americana, com disciplina, com inovação… e com o planeta e a vida no centro. Para a informação mais atual e oficial, por favor consulte rotary.org ou a liderança do seu Distrito. Nossa versão pode não ser a “oficial”, mas certamente poderemos — Carlos, Majrajani e este que vos escreve — convencê-lo de que, com princípios rotários, pensamento crítico e inovação, serviremos juntos e melhor pelos próximos 121 anos. (*) Alberto Palombo é engenheiro industrial e de sistemas, especializado em gestão de recursos hídricos e mudança climática, sócio fundador do Rotary Club de Brasilia International, sócio honorário do Rotary Club Bogotá Multicentro e coordenador técnico do Cadre da Fundação Rotária para meio ambiente. E-mail: [email protected].
Postado em 23 de Fevereiro de 2026 por Rotary Club de Brasília-International